Arquivo de Feb/2008

Lançamento do livro “Arquitetura Vernacular Praieira” em Pipa - RN

23/02/08

Daqui em diante, sempre que for possível, tentarei antecipar as informações de alguns eventos.

Pra começar: dia 29/02/08, sexta-feira, às 20:00h, estarei fazendo o lançamento do livro na Book Shop, de Cintia, em Pipa - RN. Um local muito charmoso e aconchegante. Para vocês terem uma idéia esta livraria, café e galeria aluga livros em muitos idiomas para os visitantes em Pipa. O acervo, muito bom por sinal, foi montado e é mantido através de doações. Todo mundo em Pipa sabe onde está a Book Shop.

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Fotos: Joel Gomes

Texto de Apresentação pelo Prof. Romeu Duarte - IPHAN - CE

16/02/08

Pedi autorização ao prof. Romeu Duarte para publicar, na íntegra, sua apresentação sobre o livro “Arquitetura Vernacular Praieira” durante o lançamento em Fortaleza:

Apresentação

Arquitetura Vernacular Praieira

Como qualquer artefato cultural material, a arquitetura nada mais é do que a apropriação da natureza pelo conhecimento, processo este gerador de um produto que se presta aos mais diversos usos e abordagens. Produzida por mentes e mãos eruditas e leigas, constitui-se, além de objeto utilitário e signo de comunicação, marco histórico de uma trajetória de civilização, em que o nomadismo dá lugar ao sedentarismo, momento demarcador da dura lida de tomada e ocupação do território.

O livro “Arquitetura Vernacular Praieira”, bela iniciativa do jovem arquiteto Genival Costa de Barros Lima Junior, é uma publicação na qual se enfoca, com riqueza de detalhes decorrentes de um extremado rigor de observação, uma produção edilícia que até hoje não mereceu, em nosso país, a devida atenção dos técnicos e pesquisadores do campo da arquitetura e do urbanismo: as construções erigidas através dos saberes e fazeres populares.

Consultando o dicionário, indispensável amigo de todas as horas, temos que o vocábulo “vernacular”, derivado de “vernáculo”, tem a ver tanto com a natureza quanto com a cultura, designando algo que é “próprio do país ou da região em que se está, autóctone, nacional”. Assim como para reforçar a pureza material das linhas dessa arquitetura, o termo também se presta à predicação de uma linguagem, “genuína, correta, pura, isenta de estrangeirismos, castiça”, dizendo da legitimidade dos dialetos. Arquitetura vernacular praieira seria então o acervo dessas construções situadas à beira-mar em que se emprega, de modo direto e quase sem beneficiamento, materiais naturais facilmente encontrados no meio, agenciados mediante tecnologias construtivas antigas, despojadas e híbridas, respondendo a programas de necessidades de corte sócio-econômico tradicional. Por essa razão, por se constituírem em eloqüentes exemplares do rico e diverso panorama da arquitetura nacional, merecem destaque como reserva patrimonial de nossa cultura.

A pesquisa se inicia partindo-se do acertado pressuposto de Paul Oliver, segundo o qual “a produção de arquitetura profissional é ínfima quando comparada ao que se produz de maneira informal no mundo inteiro”, bem como de célebre passagem de Luis da Câmara Cascudo sobre o jangadeiro e seus ofícios. Enfatiza-se que se deve apreender o meio e aprender sobre este, vez que “abrigar é, ambos, processo e artefato: é a experiência de viver em um lugar específico e é a expressão física de fazer isso”. (Paul Oliver). Portanto, conhecer o meio ambiente e transformá-lo com os meios tecnológicos à mão, de maneira equilibrada e ecológica, é a essência da operação aqui relatada. Importante registrar que o estudo não se limita somente à fatura arquitetônica, estendendo-se também aos domínios do patrimônio imaterial (celebrações, conhecimentos e ofícios, formas de expressões e lugares), identificando uma complexa paisagem cultural, de grande expressão e relevância.

Do ponto de vista metodológico, informa-se que, para a elaboração do estudo, palmilhou-se todo o litoral nordestino, ou seja, da divisa entre o Maranhão e o Pará até o limite da Bahia com o Espírito Santo. Treze mil quilômetros percorridos a pé, de barco e em veículo automotor. Esse passeio propiciou ao autor uma preocupante constatação: “quanto menos tocada pelo turismo predatório ou pela influência corrompedora, em muitos sentidos, da cidade grande, tanto mais preservada a cultura pesqueira praieira que buscávamosLindo e vasto é o litoral nordestino. Pouco conhecido e mal explorado. Esquecido e mal preservado. Desaparecendo do mapa está a cultura pesqueira artesanal”.

A casa do pescador é o seu microcosmo particular. Os ambientes internos, muitas vezes reunidos em um só vão, abrigam indistintamente atividades íntimas e sociais das famílias, bem como outras de serviço e trabalho. As divisões das plantas se fazem ao sabor do aumento dos membros da família ou por razões de privacidade ou de melhoria do conforto ambiental. O urbanismo das vilas não segue os ditames dos zoneamentos funcionais clássicos: são as distâncias pessoais e familiares, os cursos d’água e as variações das marés, dentre outras condicionantes, o que determina o traçado dos aglomerados humanos. A taipa de sopapo sobre o pau de mangue estruturado, os rústicos baldrames definidos por toras, os pisos e terraços em barro batido, as cobertas em palha (natural ou trançada) e cerâmica, os paramentos em tábuas de madeira pintadas em cores primárias, as divisórias em palha, são estes os elementos que definem materialmente as construções. Os exteriores alpendrados, ocupados pelas redes e por um mobiliário simples, são locais privilegiados de convivência. Entretanto, as cozinhas e os banheiros ainda não foram plenamente integrados às casas. Curiosidade: há tanto as “casas dos homens”, pois os pescadores não encaram (ainda) as mulheres como parceiras de trabalho, quanto as “casas das mulheres”, mais asseadas e organizadas.

Mesmo simples, essas residências revelam engenhosidade em suas plantas: apoios separados das vedações, cobertas executadas com materiais isolantes, divisórias desenhadas de forma a que o vento circule por todo o imóvel. As singelas fachadas exibem, no mais das vezes, um predomínio dos cheios sobre os vazios, estes abertos para acessos, enquadramentos visuais e captação eólica. Além disso, há que cuidar da proteção das paredes contra o sol, a chuva e a forte ventilação de certas épocas do ano, para o que se utilizam anteparos os mais variados. Numa palavra: “a arquitetura vernacular praieira tem muito a ver com o mar e com o trabalho que lá se exerce … a pesca, como modo de vida, é muito influente no modo de construir do pescador. A simplicidade da jangada ou barco e de seu navegar parece ser premissa da construção em terra. Os esteios, amarrações e esforços são transportados para a construção da casa, seja nos materiais, seja nas amarrações de coberta ou no trançado de palha (samburá)”. Diria eu, parafraseando Leon Battista Alberti e Vilanova Artigas: “os barcos como as casas, as casas como os barcos”…

De fácil e agradável leitura, o livro nos brinda ainda com um verdadeiro álbum fotográfico, bastante esclarecedor quanto aos detalhes dessa peculiar arquitetura. Na mesma linha, o que o autor afirma nas considerações finais sobre o destino dessas construções, reiterando a sua preocupação com o seu desaparecimento em favor de uma turistificação estandardizada do litoral nordestino e fazendo um apelo quanto ao tombamento de algumas vilas e comunidades. De minha parte, apontaria, como digno dessa proteção, no âmbito federal, o conjunto urbano de Icapuí, no Ceará, um dos mais expressivos do país e a mercê de intervenções descaracterizadoras e destruidoras.

Encerro esta apresentação com as palavras do autor: “esse panorama construtivo da cultura praieira aponta para uma grande necessidade: a de observamos melhor nosso homem, seja ou esteja ele onde estiver. O olhar atento e respeitoso sobre a cultura e o que ela revela, nos habilita a entender, aprender e analisar, com mais intensidade, o que há por trás das pessoas e do seu modo de vida”.

Muito obrigado.

Romeu Duarte Junior é arquiteto e urbanista, professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará, doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Conselheiro Vitalício do Instituto de Arquitetos do Brasil, titular da 4ª Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e Membro Honorário do Colégio Oficial de Arquitetos de Madrid.

Lançamento do Livro “Arquitetura Vernacular” em Fortaleza

16/02/08

Neste último dia 12 estivemos lançando o livro “Arquitetura Vernacular Praieira” em Fortaleza. Fiquei muito feliz com a bela apresentação do Prof. Romeu Duarte, supte. do IPHAN - CE. Vale a pena destacar a presença de Luiz e Ione Fiuza, renomados arquitetos, no evento. Gostaria de agradecer, por toda ajuda prestada, a Augusto Bezerra e Bernadete, sua esposa, Alberes, Tetê e Felipe, e Luíza e Synthia, da Oboé.

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